Reflexão do Múnus de Liturgia: Compreensão Teológica da Liturgia

por Frei  Alberto Beckhauser, OFM

O QUE É LITURGIA

Hoje em dia a palavra Liturgia é bastante usada. Todos os cristãos sabem de certo modo por experiência o que é a Liturgia. É o culto da Igreja, é uma vivencia de fé, é uma forma especial de oração. Mas será que sabemos o que realmente é a Liturgia? Façamos inicialmente uma primeira reflexão.

Não faz muito tempo que se usa a palavra Liturgia na Igreja. E mesmo uma reflexão mais profunda sobre o que é a Liturgia só começou a ser feita pelos fins do século passado. Isso não quer dizer que os cristãos antes não vivessem a Liturgia da Igreja. Ela sempre foi considerada como o culto oficial da Igreja.

A palavra Liturgia vem do grego < leiturguia>, ou seja, leiton-érgon: ação do povo, melhor, ação em favor do povo. Originariamente, toda ação gratuita de pessoas ou grupos em favor do povo em geral, como os jogos olímpicos, jogos públicos, etc., era chamada liturgia.

Mais tarde, o culto oficial dos sacerdotes do Antigo Testamento em favor do povo foi chamado liturgia. Também todo serviço de uma parte em favor do todo, como por exemplo, o serviço da mão em favor do corpo, foi chamado de liturgia. Assim em São Paulo.

Podemos dizer que o culto prestado por Cristo ao Pai a serviço dos homens, toda a obra da salvação, constitui uma liturgia.

Assim, o culto oficial da Igreja que torna presente esse serviço de Cristo em favor dos homens também é chamado Liturgia. São os ritos da Igreja Católica como os Sacramentos. Além disso, temos outros ritos e cerimônias religiosas, como o Ano Litúrgico, a Oração comunitária, as Exéquias, as bênçãos e assim por diante.

Todos os cristãos têm certa experiência do que seja Liturgia, pois a vivem desde a infância, mas se perguntarmos o que é mesmo Liturgia, muitas vezes os cristãos mais esclarecidos ficam devendo uma resposta. Por isso, numa série de reflexões queremos aprofundar o que seja a Liturgia da Igreja.

O QUE NÃO É A LITURGIA

Vejamos o que a Liturgia não é para não adquirirmos uma ideia errada sobre o assunto.

A Liturgia NÃO é simplesmente um conjunto de ritos edificantes que levam os cristãos a rezarem ou a contemplarem melhor. Se considerássemos a Liturgia apenas isso, estaríamos incorrendo num conceito esteticista de Liturgia. Haveria então duas coisas paralelas: ritos belos e artísticos de um lado e devoção do outro. Pio XII, na encíclica Mediator Dei, em 1947, já dizia que quem pensa assim tem uma idéia errada de Liturgia. Tal idéia ainda existe hoje em dia na Igreja. Possuem-na aqueles que querem uma Liturgia bonita, com canto gregoriano, textos em Latim, paramentos tradicionais e assim por diante. Não quer dizer que a arte e a estética não tenham sua importância na Liturgia, mas Liturgia não é simplesmente isso.

Outros têm a seguinte ideia sobre Liturgia: Seria o conjunto de normas, leis e orientações promulgadas pela hierarquia da Igreja, que regem o culto oficial da Igreja.Pio XII diz que não erram menos os que pensam desta forma. Neste grupo encontram-se os legalistas e rubricistas, que põem a Liturgia meramente na observância exata e escrupulosas de todas as normas e regras indicadas nas rubricas dos livros litúrgicos. Não quer dizer que não haja necessidade de normas e leis na Liturgia, mas Liturgia não é apenas isso.

LITURGIA DENTRO DE  UMA VISÃO TEOLÓGICA

Odo Casel, grande liturgista, que morreu em 1948, definia a Liturgia como sendo o Mistério do culto de Cristo e da Igreja. Temos aqui um conceito teológico de Liturgia. Aparecem nesta definição quatro elementos importantes:  o mistério, o culto, Cristo, Igreja.

Mistério, usamos a palavra mistério em diversos sentidos. Percebemos que é um conceito muito rico em significado. Mistério no sentido da Liturgia não tem apenas a conotação intelectual, é visto sob o aspecto da Economia divina da salvação. Economia divina da salvação significa o plano que Deus tem em relação aos homens de fazê-los participantes de sua vida, de seu amor, de sua felicidade. Este plano se manifesta na História da Salvação. No mistério têm lugar o invisível e o visível, o celeste e o terreno, o divino e o humano, a virtude espiritual e a imagem exterior material. A palavra mistério, onde duas realidades separadas se unem em uma só, comporta já uma ideia de núpcias. A comunhão de amor entre Deus e o homem.  … Mistério é a ação de Deus, na qual Ele entra em comunhão com o mundo e os homens. Por outro lado, Deus se revela e se comunica ao homem e, por outro, o homem entra em comunhão com Deus. Mistério é a gratuidade do amor de Deus comunicado aos homens.

Culto, que expressa o relacionamento profundo entre Deus e os homens.

Cristo, este conceito coloca Jesus Cristo no centro do culto.

Igreja, a Liturgia é uma expressão cultual da Igreja.

Já vemos que não temos apenas belas cerimônias que despertam a devoção, ou normas que regem o culto, mas a expressão mais profunda do relacionamento do homem com Deus, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Cultuar Deus significa cultivar Deus. A conceituação de Liturgia deve, portanto, ser situada à luz da vocação última do homem, vocação que se manifesta na História da Salvação.

Como vemos, Liturgia tem a ver com a Teologia e a revelação divina manifestada sobre tudo nas Sagradas Escrituras.

Recorte: Celebrar a Vida Cristã. Ed. Vozes.

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