Pastoral da Consolação e da Esperança: “Viver é muito perigoso”

por: Marcelo Barros, monge de Goiás

Quem acompanha comunidades e se dedica a ajudar os irmãos a celebrar, a cada momento se depara com a situação que mais oração: a morte de um ente querido.

A vida da gente é uma permanente vitória contra a morte que, de diversas formas, tenta nos arrebatar. Às vezes, sentimos como se o espectro da morte “ estivesse nos rondando como um leão faminto, rugindo e procurando a quem devorar” (1Pd 5,8).

Nestas linhas quero convidar vocês a meditarmos a palavra que Deus nos diz sobre a morte para nos animarmos mutuamente na fé, a partir da experiência terrível da morte de nossos queridos, que experimentamos como um pedaço da morte de nós mesmos.

AS MUITAS MORTES QUE SERVEM À VIDA

Quem mora num país como o Brasil, pode fazer a experiência diária de que aqui muita gente morre “antes do tempo”. São as “mortes severinas”. Perto do mosteiro, em menos de um mês, uma criancinha apareceu morta na beira do rio, um adolescente de dezesseis anos foi assassinado e vários perderam a vida em acidentes de trânsito. Sem falar na realidade dos hospitais e no sistema de saúde. Assim, a morte se torna cotidiana e rotineira. Aqui uma mãe perde um filho e, embora seja a própria imagem da dor, já nem se surpreende. Parece que esperava aquilo. A Igreja registra, a cada ano, milhares de pessoas assassinadas por questões de terra e na luta pela justiça. Morrem para que, um dia, outros possam viver. Como Jesus ofereceu sua vida “para que todos vivam em plenitude”(Jo 10,10).

Antes de ser assassinado, disse o arcebispo Dom Oscar Romero: Estou ameaçado de morte. Como cristão, não creio na morte sem ressurreição. Se me matam, ressuscitarei no meu povo… Como pastor, estou obrigado a dar a vida por quem amo que são todos os salvadorenhos, inclusive aqueles que me vão assassinar… O martírio é uma graça de Deus que não creio merecer. Porém, se Deus aceita o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de libertação e sinal de que a esperança será, em breve, realidade, (fev. 1980).

“Eu me entrego, Senhor, em tuas mãos e espero pela tua salvação” (Sl 30).

coordenação do Múnus de Liturgia: Jairce da Guia Medeiros Ramos

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