NOTA DE REPUDIO DA ARQUIDIOCESE DE CAMPO GRANDE – MS

Protocolo nº 436/2016
Livro VI

Nota de repúdio

No dia 17 de maio do corrente ano, pela manhã, recebi um grupo que se apresentava como paroquianos da Paróquia Santo Antônio, de Campo Grande. Essas pessoas, que desejavam apresentar críticas sobre a condução da Paróquia, foram acolhidas por mim com todo respeito, embora o grupo fosse bem maior do que o anunciado na ocasião do agendamento. Inclusive, tive que suspender o atendimento de fiéis que também tinham solicitado um encontro comigo uma hora e meia depois. Ou seja, dispus-me a ouvir com paciência o que tinham a dizer.

Na ocasião, queriam apresentar uma série de críticas ao Pároco da Catedral, Pe. Odair. Até aí, nada de extraordinário. Afinal, faz parte da missão do Bispo acolher e ouvir os seus diocesanos, mesmo que seja para que manifestem seu descontentamento.

Para minha surpresa, no final da reunião, um dos participantes, o Dr. Luiz Fernando Lopes Ortiz, campista e advogado da Associação Bom Pastor, me advertiu dizendo conhecer o Direito Canônico, e que se eu não tomasse nenhuma providência, ele saberia como recorrer a instâncias superiores. Disse-lhe que sua fala era absolutamente desnecessária. De fato, não pretendo agir sob pressão, e não é essa a forma usual de se trabalhar na Igreja Católica. Aliás, alguns dos participantes da reunião me disseram em particular que não concordavam com a atitude do colega, e que sua presença ali era para ajudar, como católicos que amam sua Igreja.

Motivado pela delicadeza destes últimos, e apesar da referida advertência, alguns dias depois dessa reunião, partilhei com o Pe. Odair sobre as reclamações, num espírito muito fraterno. Não mencionei a advertência que me fora dirigida. Afinal era eu, e não o padre quem estava sendo advertido. Ou deveria dizer ameaçado, chantageado? Essa cruz pertencia a mim, não a ele.

E mais: como levo muito a sério os que comigo partilham aspectos de sua vida, falei com o Pe. Odair sobre as críticas a ele dirigidas, mas não citei os nomes dos que estavam reclamando. Considero isso como parte da ética e do respeito para com as pessoas.

Para minha surpresa, alguns dias antes da semana de formação permanente do clero, uma semana de muito trabalho e reflexão, recebi um documento do mesmo Dr. Luís Fernando. Tratava-se de um texto de 34 páginas, que era uma degravação daquela reunião, que fora gravada sem o meu consentimento. De novo, uma carta anexa repetia que, se não houvesse providências, aquele conteúdo seria enviado à Nunciatura Apostólica. Desta vez, ficava claro que a única providência que seria aceitável para ele e, possivelmente para vários de seus companheiros, era a demissão do Pároco. Não se contentariam com uma caminhada fraterna de busca mútua da conversão.

No entanto, a surpresa maior ainda estava por vir. Não imaginava que pudessem chegar à divulgação dos conteúdos da degravação de uma conversa privada, transformando os desabafos feitos em uma audiência particular em fato público, expondo, inclusive, declarações íntimas e pessoais de alguns participantes, feitas sob forte emoção. Essa cizânia, semeada no canteiro da Igreja, revela claramente a intenção, ao menos de seu autor principal, uma vez que tenho fortes indícios de que nem todos os que participaram da reunião concordaram com essa divulgação.

Com a graça de Deus, porém, o Conselho Paroquial Pastoral, o Conselho para Assuntos Econômicos e vários fieis da Paróquia Santo Antônio vieram a público e expressaram posição diametralmente oposta ao que vinha sendo divulgado.

Diante de tudo isso, venho publicamente repudiar esse tipo de comportamento, e expressar meu vivo desejo e orações para que a concórdia reine em nossa Igreja. Divergências se resolvem na base do perdão e do diálogo, e não com esse tipo de pressão.

Reconheço que o pecado habita em mim, como dizia São Paulo: “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero” (Rm 7,19). Ou como disse recentemente o Papa Francisco: todos somos pessoas “em construção”. Por isso erramos. No entanto, continuo acreditando que o caminho não se constrói com pedras atiradas nos irmãos e irmãs, mas com pedras depositadas suavemente – ainda que com firmeza – no chão da caminhada.

Exorto a todos os fiéis católicos, sobretudo os da Paróquia Santo Antônio, a permanecerem firmes na fé, na oração e na caridade, a não se deixarem abater pelo desânimo e a retirarem todo espírito de vingança e retaliação de seu horizonte.

E que Nossa Senhora da Abadia, nossa Padroeira, nos abençoe nessa peregrinação rumo ao Reino definitivo.

Campo Grande,25 de julho de 2016
Festa de São Tiago, Apóstolo

Dom Dimas Lara Barbosa
Arcebispo Metropolitano de Campo Grande – MS

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