Múnus de Liturgia: Liturgia, Celebração do Mistério Pascal

Por Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 Celebração tem a ver com “tornar célebre”. Tornar célebre (= celebrar) tem a ver com o evidenciar de algo como muito importante, memorável, decisivo. E como o fazemos? Com palavras, mas, muito mais do que com palavras, com ritos, gestos, símbolos, música, festa. A ritualidade é essencial para vivenciar de fato o mistério. Pois o ser humano não é só cabeça, cérebro, intelecto; ele é corpo inteiro, olhos, ouvidos, olfato, paladar, tato, coração, entranhas, complexo neurológico, emoção, sentimento, afeto… O mistério da divina Liturgia se torna célebre por vias da globalidade do nosso corpo. Pois – talvez parafraseando Jo 1,14 – a Liturgia se fez carne e armou sua tenda em nosso corpo.

Páscoa tem a ver com “passagem” de condições de morte para condições de vida. Para nós cristãos, nossa páscoa é Cristo (cf. 1Cor 5,7). Pois “Ele é o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo. Morrendo, destruiu a morte e, ressurgindo, deu-nos a vida” (Prefácio da Páscoa I). “Por ele, os filhos da luz nascem para a vida eterna; e as portas do Reino dos céus se abrem para os fiéis redimidos. Nossa morte foi redimida pela sua e na sua ressurreição ressurgiu a nossa vida” (Prefácio da Páscoa II). E “Ele continua a oferecer-se pela humanidade, e junto do Pai é nosso eterno intercessor. Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente” (Prefácio da Páscoa III). “Vencendo a corrupção do pecado, Ele realizou uma nova criação e, destruindo a morte, garantiu-nos a vida em plenitude” (Prefácio da Páscoa IV). Sua glorificação nos tornou “participantes da sua divindade” (Prefácio da Ascensão do Senhor II).

Numa palavra, sua vida, morte-ressurreição e dom do Espírito são o referencial central de toda a história da salvação, como vem atestado nos escritos do Novo Testamento. Pois, a partir deste mistério (mistério pascal), o pecado e a morte não têm mais vez, estão destruídos e, por isso, temos a certeza de que, em Cristo, nosso fim é também vitorioso. Nele passamos definitivamente da escravidão do pecado e da morte para a liberdade da graça superabundante e vida plena. No fim, tudo vai dar certo! Pois na morte-ressurreição de Cristo selou-se definitivamente a aliança entre o divino e o humano.

Pois bem, a exemplo do que foi instituído para os israelitas por ocasião da saída do Egito (cf. Ex 12,1-14), também Jesus nos instruiu, deixando-nos um memorial. Isso,  algumas horas antes de ele ser entregue à morte. Sim, o memorial agora de sua (e nossa) Páscoa, síntese de toda a sua vida e sua missão. Pegando o pão e, depois, o cálice com vinho, deu graças, partiu e deu aos seus discípulos dizendo: Tomai e comei: isto é meu corpo entregue. Tomai e bebei: isto é meu sangue derramado, o sangue da nova aliança. Fazei isto em memória de mim (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20; Cor 11,23-26). Fazer isto em sua memória, aqui, tem a ver com ação, isto é, entrar no jogo do rito (pegar o pão e o vinho, dar graças, partir e distribuir, comer e beber juntos) e, neste jogo, assimilar o sentido vital contido no rito (que é o mistério pascal: Jesus, o servo de todos, se entregando por nós, por amor) para que o transformemos em vida no nosso dia a dia. Para que, também nós hoje, como parceiros e parceiras de Cristo no seu grande mutirão em favor da vida, com Ele colaboremos para que de fato em nosso meio aconteça Páscoa, isto é, “passagem de condições menos humanas para condições mais humanas” (como dizem os bispos latino-americanos no documento de Medellín).

De fato o rito deixado por Jesus foi assumido pelos seus discípulos, recebendo (com o passar dos tempos) vários nomes: Fração do pão, Ceia do Senhor, Eucaristia, Oferta, Missa, divina Liturgia. Como já dissemos acima, nossos irmãos orientais chamam a celebração memorial da Ceia pascal do Senhor de “divina Liturgia”. E nós falamos em “Liturgia da missa”, “Liturgia eucarística”.

Por que “Liturgia”? Precisamente porque, neste rito, torna-se célebre (celebramos!), torna-se presente, a maior prestação de serviço à humanidade, isto é, a divina Liturgia como corpo entregue e sangue derramado do Senhor pela salvação de todos. Em outras palavras, torna-se presente o mistério máximo de nossa fé que é a Páscoa do Senhor e nossa. Por isso que, hoje, no momento memorial da Páscoa, durante a Missa, toda assembleia litúrgica aclama: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte; proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”

E é também na celebração de todos os sacramentos, cujo centro é a celebração da Eucaristia, que podemos experimentar a impressionante energia da Páscoa que nos transforma e nos dá coragem para viver o Reino. Nessa linha, vale citar aqui uma síntese apresentada pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2008-2010) (Documentos da CNBB 87), n. 71:

“Os sacramentos são sinais da comunhão com Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo, que marcam com sua graça momentos fortes da vida.

coordenadora do Múnus de Liturgia: Jairce da Guia Medeiros Ramos

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