MÚNUS DE LITURGIA: A LITURGIA SUPÕE E ALIMENTA A FÉ

“A LITURGIA SUPÕE E ALIMENTA A FÉ”!!!  Foi este o tema da 28ª Semana de Liturgia em São Paulo, ocorrida em mês Outubro do ano passado e promovida pelo Centro de Liturgia dom Clemente Isnard, em parceria com a Rede Celebra. Um tema pertinente no atual contexto eclesial, em que os cenários litúrgicos têm evidenciado, muitas vezes, clara dissonância com a fé da Igreja. Ao contrário do que sugerem tais cenários, a Semana quis lembrar a harmonia e a reciprocidade que deve haver entre liturgia e fé. Assim, ao mesmo tempo em que supõe a fé em Jesus e o seu conhecimento, a liturgia, como norma da fé, cumpre também, por meio de palavras e ritos, a função de expressar e de fazer crescer a mesma fé (cf. SC 9 e 59). Nesse sentido, a fé que a Liturgia supõe não se limita ao conhecimento das verdades do credo, nem ao elenco das virtudes a serem praticadas. Fé é adesão a Jesus, o Filho de Deus, e uma conduta de vida segundo o seu evangelho.

Quanto à Liturgia, para que seja capaz de expressar e de fortalecer a fé, ela não pode ser mera formalidade, nem expressão de subjetivismo e de banalidade no trato com o Mistério. Liturgia é cume e fonte da vida cristã (SC 10) e, segundo a Conferencia Latino -Americana realizada em Medellin (1968), comporta e coroa um compromisso com toda a realidade humana (cf. cap 9). Essa discussão se faz especialmente pertinente, também, no momento em que estamos sob o efeito de uma crise, no interior da qual se tem buscado, lamentavelmente, viver a fé de maneira desvinculada da comunidade. O papa Francisco denomina essa crise de “globalização da indiferença” (EG 54) e, em relação a isso, pede que “não deixemos que nos roubem a comunidade” (EG 92). A fé, ao mesmo tempo em que é profundamente pessoal, não pode ser vivida senão numa comunidade de fé.  Afinal, a fé da Igreja, recebida dos apóstolos, é anterior à fé da pessoa, que, por sua vez, recebe da Igreja e nela se sustenta.

Sem vida comunitária, e sem liturgia como ato comunitário da fé, corre-se o risco do isolamento e perde-se o horizonte da própria identidade. Por outro lado, no entanto, a paróquia institucionalizou a comunidade de tal forma que suas estruturas já não oferecem uma significativa experiência de fé e de liturgia. Assim para não consentir que “nos roubem a comunidade”, teremos que criar, na paróquia e além dela, experiências diversificadas de viver e de celebrar a fé, superando a visão segundo a qual a paróquia é a única referencia da vida eclesial. As Conferencias Episcopais Latino-Americanas, desde Medellin, têm convocado a Igreja do continente a uma revisão pastoral, a uma mudança de mentalidade à luz das Comunidades Eclesiais de Base. Comunidades menores, onde seja possível a convivência humana e fraterna, a leitura Orante da bíblia e o exercício de solidariedade, constituem ambiente favorável para viver a fé e para celebrar, além da missa e dos sacramentos, também outras liturgias, como o Oficio Divino, a celebração da Palavra, a benção da mesa, etc. Tais celebrações podem constituir, de fato, expressão da fé vivida pelas pessoas e fonte que alimenta essa fé.

Editorial da Revista de Liturgia: Janeiro e Fevereiro de 2015.

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