Dia de Finados

ILUMINADOS PELA PALAVRA
A realidade da vida tem relação estreita com a realidade da morte. A morte é realidade que acompanhamos de fora, participando com nossa presença da grande passagem dessa vida para outra. De fato, somente quem morreu, quem passou pela morte, poderia falar dessa experiência. Por isso, nossa experiência com a morte acontece como  observadores “ad extra”. O acompanhamento de quem morre, o estar próximo do morrente é experiência marcada em profunda densidade existencial, que deveria ser passada no conforto silencioso da presença humana, para que os últimos respiros de vida não sejam de desespero, mas de esperança na vida eterna. Como canta a prece do salmista: “aliviai meu coração de tanta angústia” (salmo responsorial); da angústia de sentir a vida se despedindo em sua misteriosa passagem para a eternidade, para uma vida diferente, impossível de qualquer comparação.

A dificuldade de encarar a realidade da morte como parte da vida é notória, em nossos dias. É um fenômeno social que, pouco a pouco, assume características culturais, na tentativa de expulsar a morte do convívio social. Se no passado, o morrer era respeitado com ares sagrados, a realidade atual tende a afastar-nos da morte, dando à essa vida ares de imortalidade. São Paulo faz referência a essa mentalidade como escravidão da vaidade, impedindo perceber a corrupção do próprio corpo.

Na mentalidade atual, em vez de projetar a vida na direção da glória divina, a vida é projetada para a realidade da terra e para esperanças que terminam com a morte. Projeção feita de muitos modos como, por exemplo, na erotização da juventude, na tentativa de transformar a terra num grande parque de diversões e, de modo mais icônico, na cirurgia plástica para esconder o envelhecimento, esconder os sinais que o tempo imprime no corpo que morre aos poucos. Diferentemente do homem bíblico, que coloca a segurança de sua vida nas mãos de Deus, o homem e a mulher do novo milênio põem a segurança da vida na aparência. Realidade frágil, que esconde o grande mistério da vida, mistério que tende à transcendência em busca da vida plena, que não morre: Deus.

A realidade da morte está em quem morre, no morrente, dizíamos. É ali que “vemos” a morte, que “vemos” a vida fugindo como água que escoa entre os dedos e desaparece na terra. É momento de solidão profunda que, dizem os místicos, é vivenciada de modo sereno ou turbulento de acordo com a proximidade ou distância que se tem de Deus. O salmista é exemplo de quem vive próximo de Deus e nele coloca sua esperança. Paulo faz referência ao medo da morte, ressaltando a impossibilidade de pensar a morte unicamente como fato biológico porque, no processo de morrer, a pessoa é envolvida em sua totalidade, em seus sentimentos e emoções que, ao sentir a vida se apagando, tornam-se mais vulneráveis. Do ponto de vista cristão, entende-se a insistência da presença profissional e da presença humana e familiar, onde todo o amparo corporal, psicológico e espiritual ajudam no último passo da caminhada final da vida.

ILUMINADOS PELAS ORAÇÕES
Duas intenções necessárias nessa celebração:

– Interceder pelos falecidos, especialmente pelos familiares dos celebrantes, para que possam participar da vida plena, prometida por Jesus no Evangelho.

– Interceder a graça de uma boa morte, para que o medo não tome conta daquele momento, mas que sejamos fortalecido na esperança de que Deus nos acolherá no lugar que Jesus nos preparou.

Rezar essa celebração é suplicar com a Igreja a graça do repouso eterno a quem morreu, para se tornar participante da graça divina. É súplica que cresce em intensidade no decorrer da celebração, intercedendo a participação no Mistério da Ressurreição de Jesus  pelo perdão de todas as faltas em vista da ressurreição pessoal .

ILUMINADOS PELA VIDA

O acompanhamento de pessoas em fase terminal, ou lutando com enfermidades graves, precisa considerar três aspectos: o valor da vida humana, mesmo se mantida por aparelhos; o significado do sofrimento humano; a importância do relacionamento humano e afetivo com o morrente. O acompanhamento do morrente não pode se limitar ao profissional — médicos, enfermeiros, psicólogos —; é imprescindível a presença humana no acompanhamento da passagem dessa para outra vida.
O motivo desse acompanhamento encontra-se no valor da vida humana, ou então, na dignidade da vida humana que continua o momento da morte. É momento, no qual a pessoa sente mais intensamente a presença solidária e amorosa da família, de amigos e de quem ajuda a olhar a morte de frente, com a força da caridade cristã. Nesse processo de caminho final, sentir uma presença amorosa valoriza a vida, mesmo se esta não tenha sido valorizada no decorrer de toda a existência. A dignidade da vida humana não permite que a mesma acabe de qualquer modo, na tristeza ou na decepção e, menos ainda, em frustração. Isto seria frustrar a obra prima da criação feita por Deus. É importante, pois, fazer-se presente, perto de quem está partindo para valorizar a dignidade e a importância de sua vida.

O segundo elemento é o sofrimento. Um tema difícil de ser tratado porque rejeitado entre nós. O sofrimento, no processo de despida da vida, não se limita a quem está de partida, mas atinge igualmente quem acompanha essa partida. Aquele sofre no corpo e no sentimento e, quem acompanha, sofre no sentimento, ao perceber que nada pode fazer para prolongar a vida. Não se pode medir ou comparar um e outro sofrer, porque o sofrimento de quem olha a morte nos olhos é sempre forte, intenso e impotente. Cabe aos cristãos ajudar a sociedade a crescer na esperança de que a morte é o limiar para uma vida sem sofrimento, quando as lágrimas serão enxugadas para sempre.

Por fim, o terceiro elemento — relacionamento com o morrente —, com aquele que tem consciência que sua vida está se apagando. Dizem os especialistas no assunto, que o melhor modo é adotar uma postura de sinceridade diante da realidade. Se o primeiro encontro com a proximidade da morte pode ser marcado pelo medo ou revolta, sentimentos plenamente humanos, depois disso é preciso reaprender a olhar a vida de frente para dizer: “enquanto tiver forças, vou viver bem”. Eis uma atitude de quem não se entrega à morte, mas bebe a vida até a última gota.

É atitude na qual transparece a dignidade da vida em forma de prece sofrida em corpo debilitado, valorizando os últimos e pequenos detalhes da existência, como se encantar com coisas simples, tão simples como uma erva do campo que floresce de manhã, alegra os olhos de quem a contempla por um instante, e logo depois volta silenciosamente para a terra (Sl 90,5-6).

CONTEXTO CELEBRATIVO
Direcionar o olhar dos celebrantes para a realidade da morte, com a finalidade de encará-la como parte da vida humana, como passagem para a eternidade e como possibilidade de viver a caridade ao lado de quem está morrendo.

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