DE QUE MANEIRA OS CASAIS EM NOVA UNIÃO PODEM PARTICIPAR DO ANO SANTO EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

Protocolo nº 198/2016
Livro VI

MENSAGEM AO POVO DE DEUS
DE QUE MANEIRA OS CASAIS EM NOVA UNIÃO PODEM PARTICIPAR DO ANO SANTO EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA?[1]

 Prezados irmãos e irmãs em Cristo Jesus,

Como é do conhecimento de todos, muitas pessoas que já se casaram na Igreja, por motivos muito diversos, realizaram novas núpcias. São João Paulo II ensina que a Igreja deve esforçar-se “infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação”, e insiste que os pastores, “por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimônio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido”[2].

São João Paulo II exortava “vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança”, uma vez que também eles “poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade”[3].

E o Papa Bento XVI nos ensina: “Mesmo quando não for possível abeirar-se da comunhão sacramental, a participação na Santa Missa permanece necessária, válida, significativa e frutuosa; neste caso, é bom cultivar o desejo da plena união com Cristo, por exemplo, através da prática da comunhão espiritual, recordada por João Paulo II e recomendada por santos mestres de vida espiritual”[4].

Diante destas e de outras exortações, está claro que esses casais podem e devem participar e aproveitar da graça extraordinária do Ano Santo da Misericórdia, ainda que não o façam pela via sacramental. De fato, o Papa Francisco convida todos os cristãos a passar pela Porta Santa, que será então “uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança”[5]. E mais: “Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos sem excluir ninguém”[6].

Para São João Paulo II, mesmo para quem não possa participar dos Sacramentos, particularmente da Confissão e da Eucaristia, “a repetição frequente de atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição quanto for possível perfeitos”, ou seja, realizados por amor, na plena entrega à misericórdia de Deus, e não pelo medo do castigo, “poderão preparar o caminho para uma plena reconciliação no momento que só a Providência conhece”[7]. Nesse sentido, todos podem aproveitar desta grande graça do Ano Santo da Divina Misericórdia atravessando uma das Portas Santas, fazendo suas orações, colocando nas mãos e no coração da Divina Misericórdia sua situação familiar, confiando unicamente no amor misericordioso de Jesus.

O Papa Francisco nos lembra que “a Justiça de Deus é o seu perdão”. E mais: “A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar”. De fato, a Igreja deve ter “diante dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema”[8].

“Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Este é um programa de vida exigente, mas também rico de alegria e paz. Para sermos “capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida”[9].

O Papa Francisco apresenta a peregrinação à Porta Santa como um sinal peculiar, único, singular, próprio do Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência. É aconselhável que a peregrinação seja realizada várias vezes durante este ano.

“A vida é uma peregrinação” e o ser humano é romeiro, um peregrino que percorre uma estrada até à meta aspirada. “Também para chegar à Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer, segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar, que exige empenho e sacrifício”[10].

“Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode por limite ao amor de Deus que perdoa”[11].

O Papa Francisco convida a atravessar a Porta Santa “com plena confiança e ser acompanhados pela força do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrinação”[12].

“É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual – as obras de misericórdia corporais são: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos. As obras de misericórdias espirituais são: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; rogar a Deus por vivos e defuntos”[13].

Além disso, o Papa Francisco divulgou, recentemente, dois documentos, que reformulam o processo canônico para as causas de declaração de nulidade matrimonial[14]. Essas alterações deverão pelo menos duas consequências importantes: maior rapidez e menos despesas na execução do processo. Ou seja, o Santo Padre simplificou a maneira de realizar esses processos. Nosso Tribunal Eclesiástico já está se preparando para melhor atender os irmãos e irmãs que dele precisarem. É, portanto, fundamental que as pessoas que vivam uma segunda união procurem se informar em sua Paróquia ou diretamente na sede do Tribunal Eclesiástico.

Quanto às pessoas que vivem uniões de fato, que são unidas só pelo casamento civil, ou que são separadas ou divorciadas, mas sem uma nova união, também devem se informar em sua Paróquia ou comunidade sobre as formas de receberem as graças do Sacramento do Matrimônio, ou de outros Sacramentos, conforme o caso. Assim, poderão participar de forma cada vez mais plena, da vida e da missão da Igreja.

Nessa caminhada, vai conosco Maria, a Mãe da Misericórdia. “A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor”[15].

Que Deus abençoe as nossas Famílias.

Campo Grande – MS, 27 de março de 2016
Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor

 

Dom Dimas Lara Barbosa
Arcebispo Metropolitano de Campo Grande – MS

[1] Esta mensagem decorre de uma “provocação” feita pelo caríssimo Pe. Luciano Scampini, que há tanto tempo vem semeando a Boa Nova entre casais em nova união. A ele, auxiliado por um grupo de colaboradores, devo grande parte destas reflexões que agora dirijo ao Povo de Deus.

[2] Cf. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 1981, n.84

[3] Ibidem.

[4] Cf. BENTO XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, 2007, n. 55

[5] FRANCISCO, Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericordia, Misericordiae Vultus, 2015, n.3

[6] Idem, n.24

[7] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Recontiliatio et Paenitentia, 1984, n.34

[8] Código de Direito Canônico, promulgado por São João Paulo II em 1983, Cân. 1752

[9] FRANCISCO, Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericordia, Misericordiae Vultus, 2015, n.13

[10] Idem, n.14

[11] Idem, n.3

[12] Idem, n.4

[13] Idem, n.15

[14] São duas Cartas Apostólicas sob a forma de Motu Proprio, uma intitulada Mitis Iudex Dominus Iesus, para o Código de Direito Canônico da Igreja Latina, e a outra, Mitis et Misericors Iesus, para o Código dos Cânones das Igrejas Orientais. Ambas são de 2015.

 

[15] FRANCISCO, Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericordia, Misericordiae Vultus, 2015, n.24

Facebook Comments